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A Musica de Protesto Durante a Ditadura Brasileira – Aperitivo Para uma Reflexão.

Canta Historia. Que cante a história. Que se cante a história. Que descubramos a história pela música, pelos cantos sagazes que romperam o silêncio gelado de ditaduras e regimes autoritários na época em que estes corroíam a América Latina; pelos instrumentos melodiosos que traduziam o penar ou a esperança de povos em silêncio; pelas letras que se escutariam em manifestações, como se depois do silêncio se aprendesse uma nova língua.

Façamos um caminho contrário. Partir das músicas para chegar à inspiração destas. Chegar a essa percepção do compositor, modelada num molde de arte, dos momentos tensos da história desses países para melhor difundi-los na França, onde se sabe muito pouco desta fase histórica.

“Como é difícil / Acordar calado / Se na calada da noite / Eu me dano / Quero lançar / Um grito desumano / Que é uma maneira / De ser escutado / Esse silêncio todo / Me atordoa / Atordoado”

“Cálice” – Chico Buarque

A ditadura se instalou na prática quando as forças armadas suprimiram, com o Primeiro Ato Institucional (ou AI 1), os direitos políticos de varias personalidades políticas, dentre as quais João Goulart, até então presidente, em Abril de 1964. Condicionado, para não dizer dominado, pela influência do exército, o Congresso Nacional elegeu o marechal Castelo Branco, que seria a primeira cabeça da ditadura. Dois órgãos, o Serviço Nacional de Informação (SNI, que catalogava e fichava os cidadãos considerados inimigos do estado) e o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social, responsável pela censura) que o Chico teve a sorte de visitar muitas vezes, foram de grande importância e cristalizaram a censura e o terror durante a ditadura.

A ditadura já era motivo de medo e insatisfação quando a situação piorou. Quando o marechal Artur da Costa e Silva é nomeado, em março de 1967, a repressão fica mais severa com a erupção da reação do povo que sucede a sua posse. A linha dura, como era chamada, passou então a impor uma maior repressão física e psicológica. Com o AI5, a censura dos meios de comunicação, da expressão intelectual e artística se afirmou mais devastadora e o habeas corpus foi abolido em casos de supostas ameaças à segurança provida pelo regime militar, o que poderia ser… tudo.

A censura virou uma repressão comum e a música um dos elementos mais temidos e censurados pelo regime. De fato, em pouco tempo, musicas como “Pra não dizer que não falei das flores” de Geraldo Vandré, cantadas por centenas de manifestantes nas ruas levaram à conclusão de que a música, enquanto instrumento político, tinha a capacidade de encorajar os indivíduos a se manifestar e reivindicar seus direitos. Geraldo Vandré foi só um dos diversos artistas que se exprimiram durante a ditadura e apesar da censura. Dentre esses, podemos citar os mais famosos como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Elis Regina e Chico Buarque. O ultimo, nascido em 1944 no Rio de Janeiro, virou um símbolo da musica de protesto com composições como “O que será”, “Acorda Amor”, “Apesar de você” e outros cantos que não só relatavam a triste realidade como uniam os revoltados, alimentando-os de esperança.

Assim é possível extrair da música de protesto, e neste caso das composições de Chico Buarque, três características primordiais. A crítica do governo, a esperança e a importância da música como veículo de idéias.

A crítica do governo é óbvia, embora não tenha sido sempre clara para o DOPS, e se foca no autoritarismo repressivo do Estado e mais particularmente na censura : “Hoje você é quem manda, falou tá falado não tem discussão” dirá Chico em “Apesar de você”. Criticará com mais precisão as falhas da ditadura com músicas tais como Acorda Amor, em que faz alusão aos dissidentes políticos que desapareciam no breu da noite, capturados pela polícia. Em “Boom do Brasil” critica a má distribuição dos frutos do desenvolvimento econômico do começo da ditadura “Quanto mais trabalho / Menos vejo dinheiro” – que frisa uma comprovada baixa do poder de compra durante esse período.

Porém, em “Apesar de Você” se distingue mais a dimensão da esperança. A começar pelo refrão em que já imagina que “amanhã vai ser outro dia”, Chico continua com alusões a um fim da ditadura por conta da revolta dos cidadãos em nome da qual exclama “vai pagar com juros, juro”. Mas, para enganar a censura, as coisas não podem ser ditas tais como são. De fato, as letras serão muito codificadas. o povo gritando apesar da repressão vira “o galo [que] insistira em cantar” – um palpite para a meta-linguagem dessa canção?

Isso nos leva a uma reflexão sobre a música enquanto instrumento político. Em uma “entrevista” com o DOPS, para explicar o sentido de “Apesar de Você”, Chico Buarque dirá que a música trata de uma “mulher muito mandona”! Argumento que funcionará pois a canção não será censurada.

Por outro lado, “O que será”, de Chico Buarque, foi considerada emblemática por ressaltar sentimentos e imagens ambíguas do imaginário de um povo sob a ditadura.

“O que será? Que Será? / […] Que cantam os poetas / Mais delirantes / Que juram os profetas / Embriagados / Está nas fantasias / Dos infelizes / […] O que não tem decência / Nem nunca terá! / O que não tem censura / Nem nunca terá! / O que não faz sentido…”

“O que será” será censurada. Muito engraçado, pois, segundo Chico, essa música não tinha nenhum propósito real contra a ditadura. Era, obviamente, uma ilustração do que ele ressentia durante o período mas não tinha nenhum objetivo contestatório.
Curioso notar que o contexto pode definir o sentido da musica, pela interpretação que será formulada pelos indivíduos. “O que será” será vista como uma canção de reivindicações e de catarse, mas por quê? Talvez porque tal era a reputação das composições do Chico, ou talvez porque quando os meios de expressão e de difusão de idéias são limitados, é necessário encontrar o sentido que se procura nos meios de comunicação que restam, até no “que não faz sentido”. Tudo isso nos leva a crer que essas musicas da ditadura, propositadamente ou não, portadoras de reivindicações e de sentimentos estão cheias e saturadas dos sentimentos daqueles que viveram a época.

Logo, “A historia na mão, caminhando e cantando e seguindo a canção. Aprendendo e ensinando uma nova lição”, o projeto Canta Historia pretende trazer aos seus ouvidos a história da América Latina.

Stefan Pinheiro, para o Projeto Canta Historia

8 commentaires

    Mas « Não existe pecado ao sul do equador » … »mas o tempo vem o tempo vai » …e « eu tou me guardando para quando o carnaval chegar »

    Parabens Stefan, Parabens Canta Historia !

    e que viva Chico !

  • Concordo com tudo, mas essa musica de protesto que encontrei esses dias no You Tube, não tem comparação:

    http://www.youtube.com/watch?v=MEs-nNw4-yQ&list=UUd3582WHReGzua5XJv9u7jQ&index=1&feature=plcp

  • Música de protesto fez história no Brasil que ótimo ter uma história boa para contar. viva a história.

  • Só gostaria de fazer um adendo ao autor do texto que o nome da música não é « Boom do Brasil », mas sim « O Milagre Brasileiro ». Eu procurei essa música pelo título, mas não consegui encontrá-la. Quando o fiz pelos versos da música, pude encontrar facilmente pela internet.

  • Obrigado Larize :) . De tanto cantar..

  • Não mim ajudou mto não mais tá valeendo :D

  • VALEU A PENA MIM AJUDOU MUITO

    • KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK MINHA IRMÃ.

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