Mural

Articles écrits par Lourenço Jardim de Oliveira

Cantar o Tejo é vivê-lo

“Música é vida” disse Amália Rodrigues. Na mais simples das frases, a diva do fado, a que foi e continua a ser a rainha das noites de Lisboa, a que guarda o charme dos fins de tarde sobre o Tejo, fala-nos de uma experiência que se pode viver de duas maneiras. Se por um lado, a música mexe e remexe o interior de cada um da forma mais íntima e pessoal, mudando a nossa maneira de ver o mundo, levando-nos a enfrentar a realidade numa viajem ao imaginário, pode igualmente transformar-se num verdadeiro fenómeno colectivo, vindo definir e consolidar a identidade de um povo. Assim, pela harmonia de uma melodia podemos criar a harmonia de uma sociedade, a identificação entre os seus membros, a consciência de um passado e uma cultura comuns, e, talvez de uma forma idealista, uma solidariedade quase total.

Assim, como todos os povos, o Português criou a sua própria música, produto da sua história, das suas vivências. O Fado nasceu um dia no Tejo, vindo do outro lado do mundo, e tendo a sua origem nos cantos de escravos brasileiros, mais conhecidos como Lundum. Veio do fundo do mar, e se pelas águas do Tejo passou, lá parece ter ficado. Às mágoas e dores que trouxe a maresia, respondeu com choros e gritos de saudade; às glórias e felicidades que as correntes levaram até á costa lusa, cantou hinos de louvor e reflectiu a luz torrada tão-somente Lisboeta com que o céu agraciou a cidade. Ergueu a voz de um povo e fez-se narrador das suas histórias, das suas festas populares e da sua “estranha forma de vida”.

É vendo as mulheres lavar a roupa no rio que ri ainda Amália, é do cimo da Torre de Belém que canta Mariza, é sentado num banco de jardim que adormece Carlos do Carmo, é empoleirado no pontão abandonado que se liberta Camané, é olhando o Cristo Rei nos olhos que se inspira Ana Moura, é de pés dentro de água que chora Dulce Pontes, e é num beco de viela banhando o passado, que vive ainda hoje Marceneiro.

Não há vento que não soe ao lamurio de uma fadista, não há sino de Igreja que não faça lembrar a guitarrada, não há fado que não se oiça à beira Tejo, e não há canto que melhor enlace este rio e sua amada.

Lourenço Jardim de Oliveira, para ParTage